A fossa que salva
Todo mundo, se já não esteve enfiando numa, já parou à beira, pensando em se jogar. A fossa, vala comum dos que sofrem com a tristeza das decepções da vida, é encarada de diferentes maneiras pelas pessoas.
Enquanto uns preferem a negação, e caem na balada, outros se afundam no quarto, com 14 caixas de lenços de papel.
Independente de como você olha para a própria depressão, passar por cima certamente é o pior erro. Fossa é pra ser vivida, encarada e superada. "Mergulhar no sofrimento ajuda a diminuir o temor que se tem dele. Normalmente, o medo do sofrimento potencializa a dor que sentimos ao enfrentá-lo", afirma Lígia Guerra, especialista em psicologia analítica.
Durante uma entrevista para o próximo livro, Lígia se deparou com uma mulher, separada há 13 anos, que sofreu por muito tempo com o fim da relação com o ex-marido. Deprimida, negou a situação todo esse tempo, se tornou dependente de álcool e perdeu a guarda dos filhos. Hoje, apenas quase uma década depois, se recupera. "A partir do momento em que entrou em contato com a realidade, encarou o sofrimento emocional, deixou de se iludir e vivenciou a própria dor, sem vergonha ou demérito, pôde retomar a própria vida, se apaixonar por si mesma e reconstruir a própria história", conta.
"Todo relacionamento tem um laço de dependência, fica entrelaçado na pessoa. É aquele negócio de ‘não sei viver mais sem aquela pessoa’, ou ‘o que eu vou fazer se o outro for embora?’", exemplifica a psicóloga Maura de Albanesi, do Instituto de Psicoterapia Avançada AMO, de São Paulo. Depois de depositada todas as expectativas e sonhos, o corte de determinada relação gera, naturalmente, o sentimento de perda.
Lígia, que é autora do livro "O segredo dos invejáveis" (Editora Gente), afirma que homens e mulheres encaram de maneiras diferentes a própria fossa. Enquanto eles começam a sair com todas as mulheres possíveis e vivem momentos de democracia sexual, elas costumam lamber as próprias feridas, recorrem às amigas, ao sofá e, muitas vezes, à comida. "Em um segundo momento, os homens começam a sentir falta da vida estruturada, do pé quente na cama, do aconchego feminino. Por vezes, é apenas nessa hora que cai a ficha do homem e que o vazio da separação é profundamente sentido".
Pela observação de Lígia, a mulher pega o caminho inverso. Depois de curada, começa a sair, conhecer pessoas novas, passa a cuidar do corpo, muda o corte do cabelo, se reinventa.
Maura pondera que pular de um relacionamento para outro, cair na bebedeira, sair o tempo todo, são todas formas diferentes de fuga. A mais sensata, segundo ela, seria procurar um ombro amigo. "Enquanto você choraminga, reclama, você também reflete". E se o amigo cansar de escutar não significa que você deva parar de falar. E se sentir necessidade de desabafar, talvez deva procurar um psicólogo ou um terapeuta.
Depois que a fossa passar, vida nova certo? Para muita gente, a resposta infelizmente é não. "Não se relacionar com outra pessoa também é uma forma de fuga. Quando a pessoa fica com medo de se envolver com outra novamente, com medo de sofrer e passar pelas mesmas coisas, usa isso como desculpa para não se relacionar e acaba fugindo dos erros", diz Maura. Segundo ela, a pessoa segue a lógica equivocada de que se não se relaciona consequentemente não erra e não sofre. "Isso sim é errado. Significa que a pessoa não aprendeu com os outros erros".
Já se jogar em outros braços também não é o mais indicado e significa que a pessoa não quer encarar o término anterior. "É preciso um tempo para refletir, juntar todas as informações que precisa para não errar mais e não fazer de novo. Se renovar e partir para a próxima", diz Maura, do Amo.
A parte boa de tudo isso - sim, a depressão pode ser positiva - é o potencial criativo que uma boa fossa pode gerar. "Ela impele o ser humano a mergulhar em sua alma, em seus sentimentos e, por vezes, existem verdadeiras joias no psiquismo das pessoas. A depressão pode funcionar como uma viagem interior, um processo de autodescoberta, desde que as pessoas não fiquem estagnadas nele", afirma Lígia. Grandes poetas e compositores que o digam, certo?
A tristeza por aquilo que não temos, mas adoraríamos ter, pode ser um trampolim para uma nova fase, pode nos fazer sonhar com uma vida diferente - um homem que respeite e ame do jeito intenso que gostaria, o corpo mais bem cuidado, aquela viagem ou uma guinada profissional. "A tristeza de uma fossa pode ser o chamado da vida dizendo: "Acorde! Viva melhor, com mais alegria, realização e paixão! Você pode e deve!", diz Lígia.
O processo de término de uma relação leva o indivíduo à depressão e a depressão leva a um processo de reflexão. Nesse meio tempo, como bem explica Maura, a pessoa se projeta para dentro de si, e tem que entender que é capaz, mesmo sem o outro. Assim como o luto, o "curtir a fossa" é saudável, natural. Todo mundo tem que ter esse tempo. E ao invés de cavar o buraco, se agite para sair dele. O fundo da fossa não pode ser cola. Deve ser mola!
Por Sabrina Passos (MBPress)
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