
Foto: rybociag
E há épocas em que um traço adquire a forma de uma partitura e duas palavras formam juntas uma poesia.
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São tempos em que um magnetismo irresistível faz a gente saltar sem hesitar. A felicidade se impregna na nossa pele, e as lentes de contato adquirem uma nova cor. E a vontade de aderir a essa força só não é maior do que a certeza de que aquilo vai nos atrair direto pro chão.
A causa desse magnetismo é aquela velha história que todo mundo bem conhece desde os tempos da Ilíada. É que, tão inevitável quanto a força da gravidade, tem gente que é um caso à parte.
Tem gente que tem novecentos e noventa e nove defeitos. Gente que não se compara a todas as pessoas que se jogariam de um avião só para ter uma chance com você.
E ainda assim, você tem novecentos e noventa e nove tipos de arrepios diferentes quando ele olha pra você.
Você tá ferrada, amiga. A experiência não mente e a gravidade não falha. Mais cedo ou mais tarde, você vai dar com a cara no chão.
Por outro lado, mesmo com quase mil defeitos - porque você ser capaz de listar 999 defeitos já conta como o milésimo - você tem todo o direito de gostar desse indivíduo. Viver é inevitável, assim como se apaixonar.
Porém, na prática as coisas mudam de configuração. Então, se você quiser ficar no avião, admirar a paisagem, tomar um sorvete e voltar segura e tranqüila pra casa, melhor para você, para a sua família, seus amigos, seu cachorro e suas plantas.
Mas se você tem um parafuso solto ou não tem mais nada pra fazer, você senta bem bonitinha na beirada do avião (a uma altura de quatro mil pés, e um vento de 180 km/hora - como se a natureza estivesse te segurando e argumentando que saltar de paraquedas é demais pra você), segura firme na barra externa, fica com o pé esquerdo no degrau, balança o direito livre, ouvindo um silêncio absoluto dos próprios pensamentos - nem o próprio Dalai Lama faria melhor - e se joga no ar.
E, nesse momento, você deixa tudo para trás. Não apenas a sua sanidade mental, mas a pessoa que você costumava ser. Uma pessoa cheia de receios, dúvidas e hesitações. Em segundos, tudo se torna diferente. E você pode ter a certeza de que, depois de se entregar àquele salto insano, você nunca mais será a mesma.
Cair em queda livre é se apaixonar: maravilhosamente desesperador. Não há mais nada para pensar além da falta de chão sob os seus pés. E você não sabe fazer outra coisa a não ser continuar caindo.
E quando tudo parece perdido, quando você menos espera, o paraquedas abre. Você se vê flutuando no ar.
E esquece de si.
Mas nem tudo são flores.
Uma vez que a euforia passa, dentre sentimentos imprevisíveis, você descobre que dar com a cara no chão não é nada parecido com o esperado. Porque ela acontece enquanto você ainda está lá em cima. Vendo a Terra aos seus pés, você acorda para a realidade, e sente uma imensa solidão. Você pode gritar, espernear, desmaiar. Nada faz a menor diferença para o resto do mundo lá embaixo.
E quem desistiu de saltar e voltou seguro pra casa, também está sujeito a essa mesma realidade: estamos sozinhos e não, nunca estivemos seguros.
E é aí que a "fossa" começa.
Mas sabe de uma coisa? A gente nunca sabe o que vem em seguida.
Apesar da solidão, você descobre que o próximo passo é navegar com o paraquedas.
Sim, voar.
A vida é muito generosa quando a gente está disposto a estender-lhe a mão.
E quem não salta, também não voa.
A coragem é recompensadora. Nos permite viver a vida em toda a sua plenitude. E viver é um imenso privilégio. E os instrumentos estão aí: coração, pulmões, braços, pernas, e - quem sabe alguma - lucidez.
O traço se torna uma partitura, porque a mesma ainda é um traço, mas sob uma perspectiva totalmente nova e romântica. E é disso que se trata entregar-se a um sentimento, a uma aventura nova. De novos ares e olhares.
E quando você aprende a fazê-lo, viver se torna inevitável.
Então ame. Ame, e seja feliz.
Ah, e Feliz Dia dos Namorados.
Marianna Greca é publicitária e nerd assumida. Social Media, webwriter, tradutora e desenhista compulsiva. Tão louca por Internet quanto pela Ilíada. Acredita que assumir a maternidade do mundo é o melhor caminho para a felicidade.
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