Unhas decoradas

Mulher e moda

Seg, 25/01/2010 - 05h00    |   Reportar abuso
Por Maria Cristina

A necessidade de seguir a risca os padrões ditados pela indústria da moda leva a muitas mulheres a serem meros manequins de carne e osso, simples cabides, esvaziadas de desejo e identidade.

Apesar de todos os anos de ideologias que defenderam a liberação feminina, percebemos um número absurdo de mulheres dogmatizadas pelas tendências da moda aceitando com um fanatismo religioso, sem análise, sem distinção, com uma adesão submissa total. São aquelas que talvez não tiveram a oportunidade ou a coragem de crescer e se educar num ambiente questionador. Que não aproveitaram a força e a rebeldia da adolescência para ir se definindo como seres pensantes e críticos.

A ansiedade e a angústia freqüentemente derivada da insatisfação com a vida, com os relacionamentos e com a profissão, acaba sendo uma saída para consumir roupas, sapatos e acessórios.

Vestir-se acompanhando os padrões estabelecidos pela cultura, traz um alívio, conforto e segurança. Uma identidade-prótese que defende da dor de não poder dar forma a seu desejo singular.

Janeiro é freqüentemente um mês de liquidações e novamente temos a mídia e a indústria nos atiçando a comprar por um preço mais barato peças que freqüentemente não precisamos. É também o mês da SPFW onde são lançadas as novas tendências, estilos, etc.

No entanto, para muitas outras mulheres de diferentes idades, por exemplo o ato de sair "window shopping" ou, em outras palavras, de compra de vitrine, não tem nada a ver com a insatisfação ou escapismo. Tem a ver com outras características das quais não tem se falado o suficiente, a meu ver.

A vontade de olhar vitrines sem a urgência de se apropriar do que ali está, pode estar associada com a possibilidade e a liberdade de se devanear, sonhar e se projetar nas roupas, sapatos e objetos expostos nas vitrines.

Podemos pensar no aspecto da necessidade que a mulher tem de se reinventar, se recriar, se transformar tanto no visual externo quanto internamente, no seu modo de pensar, agir e sentir.
Para muitas mulheres o ato de vestir se significa algo da ordem da estética, da criatividade.

Recombinar saias, calças, blusas, de coleções antigas (vintage) com peças da última coleção, de formas diferentes pode ser parte de um processo criativo. Quando a pessoa está mergulhada neste processo, o receio do olhar crítico do outro, está muito mais associado ao risco de criar um visual inovador, original e não simplesmente o de tentar agradar o outro.

Quando observamos as meninas de 5, 6 e 7 anos tentando utilizar as roupas e sapatos da mãe, percebemos que neste jogo a uma necessidade de experimentar novos papéis, o papel da mulher, da mãe, da sensualidade, da sedutora.

Não são todas as mulheres que vivem tiranizadas pela moda, que se deixam assediar pela mídia, muitas a utilizam para experimentar e se projetar em diferentes papéis. Os desfiles trazem peças que freqüentemente não tem a intenção de serem utilizadas, mas, ao contrário, de inspirar e ampliar o horizonte com novas possibilidades de texturas, cores, etc.

Em 1908, Georges Simmel escreveu Filosofia da moda e outros escritos, nos quais ele refletia sobre o papel da moda na vida da mulher daquela época. Para o autor, a moda de roupa e adornos era por um lado imitação de um modelo dado que satisfazia a necessidade de apoio social, conduzia o individuo ao trilho que todos percorrem, oferecendo assim o conforto do universal, e que faz do comportamento de cada indivíduo um simples exemplo. Por outro lado, a moda também satisfaz a necessidade de diferenciação para mudar e separar, através da mudança dos conteúdos, marcando individualmente a moda de ontem da de hoje e da de amanhã.

Para Simmel, a moda era uma forma particular de vida que integrava a tendência tanto da igualização social quanto a da diversidade individual. Ele nos disse, "Se a moda expressa e acentua ao mesmo tempo o impulso para a igualização e para a individualização, o estímulo da imitação e o da distinção, isso explica talvez porque é que as mulheres aderem em geral à moda com particular exuberância. Com efeito, a debilidade da posição social a que as mulheres estiveram condenadas durante a maior parte da história gera nelas uma estreita relação com tudo o que é "costume", com aquilo "que fica bem", com a forma de vida geralmente aceita e reconhecida.

Os ditames da moda ofereciam um costume, uma norma, solo firme aliviando a mulher frente a sua responsabilidade pelo seu gosto e seu fazer, podendo se apoiar imitando os padrões da moda, e por outro lado, lhe fornecia uma caracterização, um realce da sua personalidade.

A vestimenta é a assinatura de uma cultura numa época dada, revela tanto aspectos da personalidade individual das pessoas como também da sociedade como um todo. A escolha da roupa expressa uma forma de existir e de se revelar ao outro.

Mesmo quando uma mulher adota e imita estilos de se vestir que aparecem nas revistas, ela está mostrando algo de si como, por exemplo, que precisa imitar padrões aceitos e ditados pela sociedade para se sentir confortável e segura, ou que há algo desta ou aquela forma de se vestir que lhe faz sentir bem, por exemplo uma aparência "casual" ou formal, ou despojado, etc.

O caráter transitório da moda é um traço muito interessante em si no qual se inscrevem códigos interessantes de serem decifrados. A possibilidade de variar, de mudar e experimentar novas tendências satisfaz uma necessidade de se reinventar e recriar.

Através da roupa, os adolescentes nos revelam sentimentos, angústias e lutos característicos desta fase conturbada, e encontram na moda e nos modismos, aderindo ou contestando os padrões, canais de expressão.


A roupa é mais do que uma mera aparência, como já expressei anteriormente, constitui a assinatura de uma cultura; é uma forma, não somente de representação, mas de comunicação entre as pessoas, que através de suas escolhas revelam aquilo que pensam, sentem dizem ou contradizem verbalmente.

Maria Cristina Capobianco é psicóloga e autora do livro "O corpo em off" (Ed. Liberdade).



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