O LÚDICO NA APRENDIZAGEM
o processo educacional observamos que é crescente a preocupação dos estudiosos da educação de estarem cada vez mais aprimorando as estratégias e conteúdos que favoreçam a uma prática pedagógica mais precisa e eficaz. No entanto a prática nas escolas ainda não tem se dado a liberdade de colocar em prática estes avanços alcançados em pesquisas educacionais, fato este comprovado por planejamentos de aulas ainda carentes de atividades lúdicas, ou quando não raro a má compreensão da mesma.
Estes fatos são vistos como uma didatização das atividades lúdicas, algo comum na educação, e esta estrutura pode ser visualizada desde o seu planejamento onde a atividade é formatada com princípio, meio e fim já estabelecido, com uma trajetória anteriormente já traçada pelo professor, não dando à criança a capacidade de transcender o proposto. Essa postura termina por restringir as crianças promovendo apenas exercícios repetitivos em suas diversos modalidades, seja através do uso de brinquedos, desenhos coloridos, músicas ritmadas e outros.
Esta postura, ao mesmo tempo em que bloqueia a organização independente das crianças para a brincadeira, enfatiza a visão de mundo uniforme, como se a ação simbólica do educando servisse apenas para exercitar e facilitar a idealização do professor, muitas vezes definida a priori pela escola, e a transmissão de determinada visão do mundo.
É fundamental que se assegure à criança o tempo e os espaços para que o caráter lúdico do lazer seja vivenciado com intensidade capaz de formar a base sólida para a criatividade e a participação cultural e, sobretudo para o exercício do prazer de viver. É na manifestação real do lúdico onde a criança vai cada vez mais se aproximando de sua essência e aprendendo a se relacionar com o mundo a sua volta, aprendendo, descobrindo e tomando decisões.
Neste contexto é papel da educação formar pessoas criticas e criativas, que criem, inventem, descubra, que sejam capazes de construir conhecimento. Não devendo aceitar simplesmente o que os outros já fizeram, aceitando tudo o que lhe é oferecido. Daí a importância de se ter educandos que sejam ativos, que cedo aprendem a descobrir, adotando assim uma atitude mais de iniciativa do que de expectativa.
Deste modo o lúdico na aprendizagem vem com a concepção e função de promover à educação infantil o desenvolvimento global da criança partindo de todo o conhecimento que ela já possui, para daí favorecer a criança vivenciar seu mundo, explorando, respeitando e reconstruindo.
Nesse sentido a educação infantil deve trabalhar a criança, tomando como ponto de partida que está é um ser com características individuais e que precisa de estímulos, para crescer criativa, inventiva e acima de tudo crítica.
Quando o educando chega a escola traz consigo uma gama de conhecimento oriundo da própria atividade lúdica vivenciada em seu dia a dia. A escola, porém, não aproveita esses conhecimentos, criando uma separação entre a realidade vivida por ela na escola e os seus conhecimentos anteriormente adqueridos.
Toda e qualquer escola que aja desta forma estará comprometendo a própria espontaneidade da criança, que não se sentirá tão a vontade em sala de aula a ponto de deixar fluir naturalmente sua imaginação e emoção, tolhendo a manifestação do lúdico, a expressão real de seu envolvimento com a vída.
Daí começamos a trazer a reflexão as indagações e afirmações que ouvimos em diversas salas de aula:
- Crianças vamos parando com a brincadeira que sala de aula não é lugar de brincar!
- Quem não faz silencio não aprende!
-Menino comportado nota 10!
Esses são exemplos de tantos outros que já ouvi em tempos que percorri a educação infantil ao ensino médio, e por que não dizer a formação superior, desde minha infância a meu trabalho de pesquisa enquanto docente, e são por eles que venho mais uma vez levantar a bandeira da ludicidade como postura educacional para o processo de aprendizado.
Se o brincar gera o prazer e me leva ao espontâneo e ao natural como não ter acesso a esta atividade como mecanismo educativo. A ação de brincar, segundo ALMEIDA (1994) é algo natural na criança e por não ser uma atividade sistematizada e estruturada, acaba sendo a própria expressão de vida da criança.
Diante disto convirjo para a mesma perspectiva, pois o brincar corresponde a um impulso da criança e permite a ela experiênciar todo seu campo imaginário, favorecendo as suas descobertas, seja no campo cognitivo quanto motor, onde vai pondo em prática todas as suas percepções de mundo sejam as ensinadas (neste caso incluo todos que favorecem ao aprendizado, educadores, familiares e outros) como por ela, também, observada. Deste modo amadurecendo seu ser de forma integral.
Para esta concepção vemos Luckesi (2000 p. 21) quando diz que “Brincar, jogar, agir ludicamente, exige uma entrega total do ser humano, corpo e mente ao mesmo tempo”. Deste modo isto nos leva a crer que se soubermos aproveitar o lúdico como um potencializador do processo de ensino aprendizagem favoreceremos de forma bastante significativa a nossa práxis pedagógica.este sentido entendermos o lúdico como uma atividade que promove a plenitude do ser nos dá a segurança de um envolvimento total da criança, compreendendo de fato as suas possibilidades enquanto prática educativa, pois ela satisfaz uma necessidade interior pelo fato do ser humano apresentar em existência uma tendência lúdica.
E esta quanto mais aproveitada e aplicada à prática pedagógica não apenas contribui para a aprendizagem da criança, como possibilita ao educador tornar suas aulas mais dinâmicas e prazerosas. Para tal o educador além de dominar a essência de uma atividade lúdica deve saber qual o seu real papel enquanto mediador da aprendizagem.
CUNHA (1994) ressalta que a brincadeira oferece uma “situação de aprendizagem delicada”, isto é, quem a media, no nosso caso nos educadores, precisamos ser capazes de respeitar e nutrir o interesse de nossos alunos, ou porque não dizer das crianças, dando-lhe possibilidades para que envolva em seu processo, ou do contrário perde-se a riqueza e o significado que o lúdico representa.
Neste sentido é responsabilidade do educador, na educação infantil, ajudar a criança a ampliar de fato, as suas possibilidades de ação. Proporcionando à criança brincadeiras que possam contribuir para o seu desenvolvimento psicosocial, tanto cognitivo quanto psicomotor, e conseqüentemente para a sua educação.
O lúdico enquanto recurso pedagógico deve ser encarado de forma séria e usado de maneira correta, pois o sentido real, verdadeiro e funcional da educação lúdica estará garantida, se o educador estiver preparado para realizá-lo.
Sendo que o papel do educador é, intervir de forma adequada, deixando que o aluno adquira conhecimentos e habilidade; suas atividades visam sempre um resultado, e uma ação dirigida para a busca das finalidades pedagógicas.
Não podemos deixar de fora a relação existente entre atividade lúdica e espaço lúdico, pois é de extrema importância oferecer a criança ambientes agradáveis, onde ela venha a se sentir bem e a vontade, parte integrante do meio em que está inserida.
Conceber o lúdico como atividade apenas de prazer e diversão, negando seu caráter educativo é uma concepção ingênua e sem fundamento. A educação lúdica é uma ação inerente na criança e no adulto aparece sempre, como uma forma transacional em direção a algum conhecimento.
Então cabe a nós educadores aprofundarmos cada vez mais nossos estudos e fundamentos acerca de um trabalho lúdico em sala de aula, onde possamos esta desenvolvendo planejamentos lúdicos, principalmente na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, onde o sistema de significação da criança esta todo voltado para os jogos, brinquedos e brincadeiras.
LUDICIDADE E ADOLESCÊNCIA
A ludicidade na adolescência não deve ser visto como um bicho papão, pois mesmo esta idade sendo caracterizada como o desafio do ser criança e ser adulto ela proporciona um encantamento em crianças, em adolescentes e em adultos. Segundo Chateau (1987), faz parte da natureza humana o ato de brincar, com a vantagem de favorecer o desenvolvimento da criança e mesmo dos adultos. Estes se realizam plenamente, entregando-se por inteiro ao jogo. Já para a criança quase toda atividade é jogo e é pelo jogo que ela adivinha e antecipa as condutas superiores. Portanto, o brincar é uma atividade inerente ao ser humano.
O significado dos jogos, dos brinquedos e das brincadeiras e sua relação com o desenvolvimento e a aprendizagem há muito tempo vêm sendo investigados por pesquisadores de várias áreas do conhecimento com diferentes contribuições. Neste sentido, ao longo desta trajetória tem-se procurado analisar os jogos por intermédio de concepções de ordem psicológica, biológica, antropológica, sociológica e lingüística. As teorias interacionistas que elegem como principais representantes, Piaget (1896-19980), Wallon (1879-1962) e Vygotsky (1896-1934), estes autores preconizam a imitação como origem de toda representação mental e a base para o aparecimento do jogo infantil. (KIHIMOTO, 1996).
Segundo Piaget (apud KIHIMOTO, 1996, p.40), (...) o desenvolvimento do jogo resulta de processos puramente individuais e de símbolos idiossincráticos privados que derivam da estrutura mental da criança e que só por ela podem ser explicados. Assim, como no desenvolvimento infantil, o autor analisa o desenvolvimento do jogo de forma espontânea, ou seja, conforme se organizam as novas formas de estrutura, surgem novas modificações nos jogos que, por sua vez, vão se integrando ao desenvolvimento do sujeito por intermédio de um processo denominado assimilação. Nesta perspectiva, o brincar é identificado pela primazia da assimilação sobre a acomodação, que é o fato de o sujeito assimilar eventos e objetos ao seu "eu" e às suas estruturas mentais.
Para Piaget (apud KIHIMOTO, 1996, 2001) o brincar não recebe uma conceituação precisa, é uma ação assimiladora, aparece como forma de expressão da conduta, cheia de características metafóricas como espontaneidade, prazer, iguais às do romantismo e da biologia. Ao inserir a brincadeira dentro do conteúdo da inteligência e não na estrutura cognitiva, Piaget distingue a construção de estruturas mentais da aquisição dos conhecimentos. Nesse sentido, a brincadeira, enquanto processo assimilativo, participa do conteúdo da inteligência, igual à aprendizagem e também é compreendida como conduta livre, espontânea, que a criança expressa por sua vontade e pelo prazer que lhe dá. Portanto, ao manifestar a conduta lúdica, a criança demonstra o nível de seus estágios cognitivos e constrói conhecimentos de acordo com seu nível de desenvolvimento.
uma outra perspectiva interacionista, Wallon (apud KISHIMOTO, 2003, p.41) ao analisar a origem do comportamento lúdico pressupõe que ele provém da imitação que representa uma acomodação ao objeto. O autor não utiliza o termo acomodação como complemento de assimilação, para explicar a atividade cognitiva, mas sim, percebe na acomodação postural o alicerce do que se tornará a imagem. Wallon vê na imitação uma participação motora do que é imitado e um certo prolongamento da imitação do real. Compreende que a origem da representação está na imitação. Logo, se a representação nasce da imitação, o aparecimento de brincadeiras simbólicas depende do domínio de processos imitativos. Para este autor, a atividade lúdica é uma forma de exploração, de infração da situação presente. Ele analisa, ainda, o psiquismo infantil como resultado de processos sociais. Na origem da conduta infantil, o social está presente no processo de interação das crianças com os adultos que desencadeia a emoção responsável pelo aparecimento do ato de exploração do mundo, portanto, compreende o desenvolvimento da brincadeira a partir do desenvolvimento da imitação que surge como resultado do desenvolvimento infantil que transcorre numa constante dialética com o meio físico e social. (KISHIMOTO, 2001).
Por último, Vygotsky com o desenvolvimento de sua psicologia trouxe contribuições importantes para a pesquisa psicológica sobre o jogo infantil. Através de pesquisas explicitou a influência do contexto social na formação da inteligência, portanto, no desenvolvimento do sujeito. Neste sentido, valoriza o fator social mostrando que nas brincadeiras dos jogos de papéis, a criança cria uma situação imaginária, incorporando elementos do contexto cultural adquiridos por meio da interação e da comunicação. Para este autor a questão fundamental do jogo é que ele propicia a zona de desenvolvimento proximal, ou seja, o jogo é o responsável pelo impulso do desenvolvimento dentro dessa zona. As brincadeiras são aprendidas no contexto social, tendo o suporte de seus pares e adultos, esses jogos contribuem para a emergência do papel comunicativo da linguagem, aprendizagem das convenções sociais e a aquisição de habilidades sociais.
Como jogo pode ser considerada toda a atividade humana que acontece na sociedade, ou seja, toda a atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhando de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana, sendo fator fundamental no desenvolvimento e transformações ocorridas na civilização. Nesse sentido, o jogo não deve ser imposto, mas voluntário, desinteressado e livre. Quando os jogos são sujeitos a ordens, deixam de ser jogos, podendo no máximo ser uma imitação. Além disso, os jogos possuem uma função social.
Deste modo considerar o jogo como uma totalidade no moderno sentido da palavra e de extrema legitimidade, e é como totalidade que devemos procurar avaliá-lo e compreendê-lo. Para ele podemos negar, se quisermos, quase todas as abstrações como justiça, beleza, verdade, o bem, a seriedade, mas não podemos negar o jogo, reconhecê-lo é admitir forçosamente o espírito, pois seja qual for sua essência, não é material. A própria existência do jogo é uma confirmação permanentemente da natureza supralógica da situação humana.
É neste sentido que existe o forte gancho para se disponibilizar atividades lúdicas na adolescência. Se os animais tambêm brincam, é sinal de que falamos de alguma coisa, mais do que uma simples ação mecânica. Se brincamos, jogamos e temos consciência disso, é porque existe algo mais do que simples ser racional, pois o jogo é irracional. Os jogos celebram os papéis sociais, como o casamento, a família, o nascimento, os cuidados e a educação dos filhos (os cuidados da primeira infância tem lugar de destaque nesta categoria de jogo), a escola, as doenças e até os funerais. É evidente que as dificuldades e limites impostos pelo jogo, pela brincadeira, certamente contribuirão para melhorar a capacidade das crianças enfrentarem os problemas e melhor desenvolverem suas habilidades básicas para a sua própria inserção no mundo de forma adequada e com capacidade de lidar com as frustrações de forma organizada.
O brincar traz imaginação, libertação e transforma os objetos em brinquedos. Estes possuem um diálogo simbólico e uma íntima relação com o povo, com a cultura. É nas brincadeiras que os hábitos são internalizados, uma vez que a criança adora repetir, possui fascínio em querer sempre saborear de novo a vitória de um saber fazer. O legal do brincar é não fazer como se fosse e sim o fato de fazer novamente, passar da experiência para o hábito.
Muitas das crianças escolhem seus brinquedos entre os objetos que foram jogados pelos adultos, por este fato, existem brinquedos que desenvolvem a fantasia, e existem aqueles impostos pelos adultos para a criança por falta de entendimento do universo infantil e de diálogo. Finalmente os brinquedos escolhidos pelos adultos demonstram como se colocam em relação ao mundo da criança – através do brinquedo o adulto transmite como percebe e compreende o mundo infantil, mas são as crianças que dão os mais variados significados aos brinquedos.
Château, (1987, p.15) diz que é necessário, ao estudar a infância, considerar o brinquedo, pois a criança pelo jogo “... desenvolve as possibilidades que emergem de sua estrutura particular...” A criança tenta se realizar no seu mundo lúdico, sendo que o jogo proporciona a fuga do real, é uma evasão. Por outro lado, o adulto às vezes procura no jogo o esquecimento de seus problemas e da mesma forma o jogo pode ser instrumento de transmutação da realidade, algo que a transpõe a um mundo particular, dominado pela grandeza ilusória para a vida infantil e dos adultos.
Deste modo os conflitos vividos na adolescência podem ser vividos, e transmutados por neste momento ele esta inserido em um sistema que lhe confere razão de ser. Esse momento lhe transmite um sistema de significados, que permitem compreender determinada sociedade e cultura.
E na brincadeira que a criança se relaciona com conteúdos culturais que ela reproduz e transmite, dos quais ela se apropria e lhes dá uma significação: é a entrada na cultura, tal como ela existe num dado momento, mas com todo seu peso histórico, pois se a brincadeira produz sempre uma incerteza quanto aos resultados, por este fato pode-se desconfiar sempre das abordagens pedagógicas fundamentadas no lúdico, sendo este um ponto de grande importância para nos debrucarmso cada vez mais sobre estas leituras.
Deste modo pensemos cada vez mais na prática de atividades lúdicas na adolescência e principalmente em seu contexto de desenvolvimento, seja com as crianças quanto com o adolescente.http:proaiseartedeeducar.blogspot.com
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