Ser Mãe

Qua, 30/07/2008 - 14h31
Por Selma

Nós estamos sentadas, almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em “começar uma família”.

— Nós estamos fazendo uma pesquisa — ela diz, meio de brincadeira. — Você acha que eu deveria ter um bebê?

— Vai mudar a sua vida — eu digo, cuidadosamente, mantendo meu tom neutro.

— Eu sei — ela diz. — Nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de férias espontâneas…

Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.

Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar: “E se tivesse sido o MEU filho?”; que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar; que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.

Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzí-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote; que um grito urgente de “Mãe!” fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.

Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.

Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina; que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino, ao invés do feminino, no McDonald's, se tornará um enorme dilema; que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.

Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, se questionará constantemente como mãe.

Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que jamais se sentirá a mesma sobre si mesma; que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho; que ela a daria num segundo para salvar sua cria — mas que também começará a desejar mais anos de vida, não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.

Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias, se tornarão medalhas de honra.

O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.

Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que, através da história, tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.

Eu espero que ela possa entender por que eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que me torno temporariamente insana quando discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.

Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta.

Quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Quero que ela prove a alegria que, de tão real, chega a doer.

O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.

— Você jamais se arrependerá — digo finalmente. Então estico minha mão sobre a mesa, aperto-lhe a mão e faço uma prece silenciosa por ela e por mim e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho esse que é o mais maravilhoso dos chamados; esse presente abençoado de Deus, que é ser mãe.



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Comentários (
7
)


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eliana

postado:
17/08/2008 - 15h38

Na Hora Certa!

Estou passando justamente agora por essa experiência ! Minha nora já grávida e minha filha querendo engravidar. E o sentimento que toma conta de mim nesse momento é exatamente esse!!! Lindo!!!

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Leninha

postado:
06/08/2008 - 20h10

Realidade mesmo!

Esta é a mais pura realidade de ser mãe! Esquecer de nós e querer em primeiro lugar a felicidade da pessoinha que Deus nos deu de presente pra cuidar e guiar sempre. Mas isso é coisa que só se aprende vivendo, por isso damos maior importância às nossas mães quando nos tornamos mãe também. Bjus e parabéns pelo lindo texto.

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mozinha

postado:
06/08/2008 - 05h39

Lagrimas!!!!!!!! d emoção!!!!!!!

nossa linda...me emocionou demais essas palavras....as vezes axo q to muito bobona depois q tive meus filhos...mas agra tenho mais certeza q nunca q nw sou soh eu...rs
nw conseguia parar de ler nem de chorar...
Parabens pelas palavras...
Q Deus abençoe!!!
bjos!!!!!!

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Babi

postado:
05/08/2008 - 14h07

Que lindo!

Engraçado... estou vivendo exatamente este momento, ontem mesmo falei por MSN com minha mãe... ela esta longe, mas falta 1 mes para voltar, estou muito empolgada por eu e meu marido estarmos conversando muito e fazendo planos para ter nosso bebe em breve... que pensei, imagina que susto ela irá tomar ao ver a minha vontade de ser mãe, e ela será avó... então perguntei... Mãe, como vc soube que estava na hora de me ter ? A resposta foi bem mais simples q esta carta, mas entendi extamente o que ela queria dizer... Filha é maravilhoso ser mãe, e estarei sempre ao seu lado !
É seja "quando" Deus quiser, pois eu quero mesmo!
Beijos Babi

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marcinha

postado:
04/08/2008 - 23h55

MÃE

Selma, meus olhos ainda lacrimejam e meu coração se emociona com a descrição perfeita da maternidade e do laço amoroso com sua filha. Tenho 02 meninas e 01 menino e gostaria que meus filhos compartilhassem comigo esse desejo de começar uma família. A sua descrição da maternidade é fiel ao sentimentos que nos invade ao nos percebermos mãe, desde o resultado do beta até o primeiro choro da nossa cria. É verdade, somos capazes de morrer e de viver por eles. São presentes preciosos de Deus para nós. Lindo o que você disse sobre os pais. Conseguiu colocar em palavras meus sentimentos por meu marido quando o vejo brincando com as meninas ou jogando bola com meu guri. Que amor é esse que brota no nosso coração!
Parabéns, querida! E que Deus abençoe você e seus netinhos que logo chegarão!

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Sica

postado:
01/08/2008 - 14h30

Sentimento Abusrdamente NOBRE

Todas as palavras mencionados em seu texto me fizeram achar que estava fanlando de mim , e assim eu tenho a certeza que muitas de nossas amigas que passarem por este blog terão a mesma impressão .SER MÃE É SIMPLESMENTE M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O !!!

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Mamuska

postado:
01/08/2008 - 11h26

Arrepiei, colega!!!

Vc. me emocionou ser mãe realmente é tudo isso que vc. disse, mas a única forma de se sentir completamente feliz um dia na vida sem pensar em nada, como se o mindo fosse só seu naquela hora onde a tristeza não existe e onde o único som que vc. escuta é o choro de seu filho ao nascer... tenho certeza que esta é a única hora que nós mães não pensamos em nada, é como um transe!!!!É qdo nos separam do cordão umbilical....aí sim temos a certaza então que ele será tão vulnerável ao mundo lá fora, que mesmo que tenham 1 ou 45 anos ou mais nunca deixarão de ser nosso lindo bebê!!!!
Parabéns pelo post!!!
Bjk Mamuska!!

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