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Vivendo e Aprendendo: doenças mentais não são o fim do mundo


Por Valentina

Vivendo e Aprendendo: doenças mentais não são o fi

Ser paciente de transtorno bipolar do humor, rigorosamente tratada, mãe, profissional, doutoranda, e ainda assim ter uma vida afetiva para gerenciar não é nada fácil. Não é mesmo. É buscar equilíbrio quando seus neurotransmissores já nasceram programados para te sacanear, e ir navegando a vida entre se reconstruir - afinal há toda uma história pessoal - e os tais gatilhos estressores! ggrrrrr!

Assim eu vejo minha trajetória de quedas e levantadas como uma sucessão de vitórias, boa parte com um sabor um tanto amargo, é verdade, mas que no frigir dos ovos, eu posso dizer que com a minha idade, a minha origem, e as minhas condições gerais, eu estou é muito bem, sabem?

Eu vivi, e eu vivo de maneira completa, inteira em casa relacionamento que estabeleço com o mundo e consegui coisas importantes para mim: minha independência, uma família com meu filho, estudar (hoje o que eu gosto), trabalhar no que eu gosto... muita gente que se diz normal não conseguiu isso!!!! E talvez tivessem muito mais apoio do que eu jamais tive na vida, então... estou na estrada certa.

Mas não me descuido. Sou uma grande crítica de mim mesma, faço minha análise, meu tratamento, sofro para me manter com meus medicamentos que não são tantos assim (já tomei muitos no início e eram TODOS caríssimos), mas não são baratos, enfrento o preconceito que qualquer um que tem um diagnóstico de doença psiquiátrica sofre - mesmo um transtorno de humor - especialmente em pesquisa, e acreditem, na área de saúde!!!! Cuido da minha saúde mental e física, e faço isso também por ter um filho que eu amo demais, demais mesmo, que é a luz da minha vida.

Mas o tratamento me ensinou tanto sobre mim mesma que hoje me assusto ao ver como eu sofri tanto desnecessáriamente. Ah, se o diagnóstico tivesse chegado antes, e o tratamento adequado também! Nunca fui do tipo bipolar drogada, prostituída, que não termina nada que começa, que arruma briga na escola e no trabalho. Mas tinha um humor ferino, agressivo, detestava controle e era muito controlada, sono errático, trabalhava desde os 14 anos, e desde os 17 com carteira assinada, aos 23 me formei advogada às próprias custas, e aos 20 já era professora de inglês, tudo às minhas custas. O triste é conviver com a velocidade de pensamento, gente! Não é psicose ou delírio, é apenas mania em alguns de seus graus ou manifestações, mas só compreende quem já passou por ela, quem já conviveu, e os bons profissionais. A gente lê livros um atrás do outro, quase sem dormir, estuda demais, tem a maior pilha do trabalho, topa todas as baladas, se sente super bem, ou hiper irritadiço como se fosse capaz de corrigir tudo ou soubesse tudo, a memória vai a mil, é capaz de memorizar músicas, textos, aulas, reuniões. Até que desaba. Não, ninguém está drogado, cheirado, nada. É algo interno. Depois vem o rebote da depressão. Ou do estado misto, que é a depressão intensa, mas agressiva. Nossa! Muitos não entendem o maldito sofrimento.

Ah, a impulsividade! Se parte de mim nasceu já muito velha, outra é adolescente até hoje, completamente irrascível, apaixonada! Bipos são independentes e passionais... é neurotransmissor puro! E eu digo o seguinte: se conseguissem extrair do nosso cérebro o suco da hipomania seria a droga mais cara e mais perfeita do mundo. Imagino um monte de bipinhos legalzões amarrados num barraco de favela, tendo seus cérebros ordenhados. E se quisessem mais forte o viciado chegaria e pediria: aí, não quero soro de hipomania não, hoje eu quero de mania aberta!!!!

Seria o fim dos tempos!

Pois para que possamos viver bem, em total plenitude e produtividade precisamos é dos nossos estabilizadores de humor, dos nossos antidepressivos (até hoje só me dei bem mesmo com um, o que uso hoje em dia, um que inibe recaptação de serotonina e noradrenalina, e que é usado também para dor periférica em diabéticos), e o diabo, e dos nossos psicanalistas maravilhosos que nos ajudam a manter as doses baixas dos medicamentos nos ensinando a controlar os estímulos de estresse. O melhor mesmo é ser apenas normal, mediano. Nunca seremos totalmente, sempre teremos flutuações um pouco mais freqüentes, só que medicados, não serão mais extremas, estaremos na tão almejada estabilidade. A versão bipolar do nirvana.

O melhor mesmo seria que as famílias ficassem atentas aos seus filhos, não tivessem medo de psiquiatra, de fama de malucos, de nada disso. Boa parte dos problemas mentais hoje, se não tem um tratamento medicamentoso de curta duração, ou apenas episódico, a manutenção sendo feita com terapia, possui controle medicamentoso que permite uma vida realmente normal, e com terapia fica melhor ainda! A pessoa pode fazer o que quiser, ser o que quiser, o céu é o limite!

Muitas doenças psiquiátricas que antes jogavam a pessoa numa vida infernal, hoje são meras doenças crônicas, como uma hipertensão, um diabetes, controláveis e convivíveis, e não impedem ninguém de viver. Eu sei do estigma, tive de conviver com ele depois dos 30, tive medo de procurar ajuda, em meio a crises de depressão severa, de confusão mental... mas aceitei ajuda e estou muito bem. Quanto mais cedo se inicia o tratamento melhor, pois crises intensas tem efeitos degenerativos. Fora que se as doenças tidas como rebeldia, gênio ruim, falta de surra, falta do que fazer (depressão, melancolia - distimia), não forem ao menos consideradas, esses jovens correm o risco de perder anos de estudo que poderiam ser produtivos, tomar decisões arriscadas pessoal e profissionalmente em virtude das doenças, etc. Com o tratamento adequado, eles podem florescer como pessoa realmente e ter um outro relacionamento com os pais, aproveitar melhor as suas vidas, sei lá!

Não acho que se deva medicalizar a vida, mas ficar atento para as necessidades, não ter preconceitos se em algum momento um médico ou medicamentos sejam precisos, pois os ganhos certamente serão maiores, e essas coisas são apenas instrumentos para o que queremos, que é ser felizes de acordo com os nossos sonhos.

Eu, como tenho uma doença crônica, refiz os meus sonhos, dei uma remodelada neles, e vou vivendo. Mais feliz hoje do que ontem! E espero que mais feliz amanhã do que hoje.

Lembrem-se: a vida é viva. Tenhamos bom humor para tirar o melhor dela!


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Comentários (1)


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ESTRELA

postado:
21/06/2009 - 16h34

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Chega uma época da vida, que adquirimos maturidade, sabedoria e segurança emocional tão apurados que compartilhar o aprendizado é natural e corriqueiro, obrigada Valentina.


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